16/01/2011

Parto de partida


Neste dia, 5 de dezembro, nesta hora, 5:30 da manhã, uma senhora branca contorcia-se de dor ao dar o ar a um filhote negro. O choro da mãe deu lugar ao choro da cria. Não que estejamos na selva, mas a selva habita aqui, não se pode negar os animais que somos. Aquele choro não era como o grito de existência dos que haviam nascido antes dele. Enquanto as outros estrangulavam-se irritadíssimos pela inconveniência de terem sido retirados do conforto, ele chorava penosamente, era como um canto gregoriano, mas um tanto desafinado. Era como um agradecimento. Obrigado por me libertarem daquela felicidade solitária.

Nascer pode ser dolorido, mas a dor faz de nós vivos. O primeiro suspiro deve rachar o peito, rasgar os espaços nunca antes percorridos. Aquele filhote de deus (com toda a carga positiva que essa palavra possa ter) entendeu na primeira dor a importância de sair da zona de conforto. É muito fácil ser feliz sozinho, o difícil é ser sozinho. Uma hora ou outra, alguma força natural qualquer nos expulsa dos nossos mundos interiores, nascemos e damos de cara com isso: falsa interpretação. Interpretamos a vida, deus, o amor, as razões, as ações, o vazio... Com sentidos muito contorcidos. Interpretamos o cantor. Não percebem que o canto penoso não foi chorado para chamar atenção para si, mas sim para o mundo. Não entendem a mensagem passional por trás daquelas ações racionais. O amor imenso pelo coletivo. A necessidade de nunca deixar de nascer. Não se acomodar. Chorar em outra sintonia. É assim que eu vejo aquele menino, um choro de liberdade. Alguém amado acontece. É momento de comemorar essa existência, que tanto ajuda a existir. Amar só é possível quando se faz parte de alguém. Eu sou uma colcha de retalhos, aquele moleque o mais novo remendo, o mais extravagante que tenho.

18/12/2010

O verdadeiro romance, o que atrai, choca, engloba, é justamente aquela história que não aconteceu. O que ficou por ser. O detalhe que desviou o caminho. Não chegou a amar, não ouve tempo. Acabou antes da largada. Nas bocas, só restou o gosto do quase. A mão estendida, a vontade. Não se tem do que lembrar, imagina-se. E se...



Treze anos depois, se encontraram em um jantar. Ambos casados. Ele, com duas filhas. Ela, um filho e uma neta. Não falaram, não trairam, não fugiram. Nem sequer se reconheceram.
- Eu te amei com tudo que eu podia.
- Intervalos no almoço?
- Era o que eu podia.


- Acredita, és tu que amo.
- Isso me ofende ainda mais.
- Atos sem significado. Foi vazio, até triste!
- Mais uma prova da tua indecência. Como podes esbravejar prazer sem o sentir?
- Minha carne nem sempre respeita meu pulso.
- Alguém comandado por impulsos não merece o meu respeito.
- Aceito o até teu desprezo, se tiver tuas mãos entre as minhas.
- De mim só poderás ter a ausência.
- Então não terei mais nada, até eu não me pertenço mais. Sou teu.
- Então faço de ti o que eu quiser.
- O que queres?
- Esquecer.

11/12/2010

Degustar-se

Uma mesa comprida o suficiente para não se saber o fim e o começo. A todo instante novas criaturas se faziam presentes. Desconfiados, como se estivessem ali por engano. Enganados por achar que suas juras de perdão no último suspiro lhes livrariam da refeição de si mesmos.
Um anjo, um espírito, um garçom:

- Estes são os resíduos da tua estupidez. Senta-te e bebe.

Um bom inferno seria aquele que obrigasse cada um a beber sua arrogância. Eu adoraria assistir alguns infelizes engasgados. Sufocados pelo gosto da soberba. Quente, pastosa e apimentada. Que queimem os lábios detestáveis que tantas ignorâncias já cuspiram ao vento!
Quantas taças seriam necessárias? Quantas doses suportaríamos? Primeiro, apenas o gosto amargo nos incomodaria. E como toda estupidez, seríamos sufocados pelo seu acúmulo. A boca espumante pelo efervescente encontro entre o que se tenta engolir e o que tenta escapulir. Até não haver mais espaço entre os orgãos. O sangue coagular. Overdose de si mesmo. O fluido pastoso agarrado à mandíbula. O ego apodrecido. A decomposição da prepotência. Faltaria ar por excesso de gordura. Não faltaria alimento.

-Engole.

Auto canibalismo.
Alimentar-se do próprio veneno.
Um eterno afogamento em si mesmo.
Agradeço à deus por eu não ter o poder do diabo.

19/09/2010

Aroma

Senti o cheiro da tristeza quando ela passou por mim. E por incrível que pareça, a tristeza não fede. Tem um cheiro de hortelã quente com canela ao fundo. Não é como aquele vento de grama molhada em um domingo chuvoso, é mais doce. Tão leve que quase não se sente, mas quando sente não se esquece, impregnante. A diferença entre um perfume natural e outro francês. Cada um com sua própria nostalgia. Mas o segundo é só, por isso tão forte, luta para manter-se grudado à pele de alguém que lhe dê sentido.

Uma mistura de nada com coisa alguma. Vestido na altura dos joelhos. Sem decote, sem cor, sem corte, sem graça. Um bom dia, seguido por um sorriso fosco. Já vi lágrimas bem mais felizes que aqueles dentes. Uma sacola maior do que as mãos dela pareciam capazes de levantar. Talvez tão pesada quanto as lágrimas engolidas que ela carregava. Uns olhos claros, escurecidos pela falta de graça, pela falta do que olhar. Já assisti olhares vagos, ocupados demais com os próprios eus para reparar nos outros. É que às vezes, o lado de dentro chama mais nossa atenção do que o de fora. Não é egocentrismo, apenas autoconhecimento. Todo mundo tem um mundo próprio e intransferível por trás dos olhos. Ela não tinha. Nada.

Pelas pupilas pude chegar até a alma, flutuante meio ao vácuo interior. Vazio de motivo. Era uma alma desnutrida e amarela de tão desbotada. O andar arrastado deixava claro que não tinha roteiro a seguir. Nem teria força para seguir por conta própria para onde quer que fosse. Suas energias eram suficientes para seguir seguindo, pelo caminho mais reto, mais conveniente.

Alguns são insuficientes para si mesmos. A dor da solidão é a prova de quem não suporta mais a própria presença. É preciso um terceiro alguém. Alguém entre o que se é e o que se sente. Que lhe permita esquecer que ele mesmo ainda está alí. Alguém para apoiar-se, para depender, para ser. Era tão só, que nem ela se servia de companhia.

Não sabia o quanto era infeliz.
Não senti pena, e sim medo. Medo de hortelã e canela.

09/08/2010

Strawberry Fields Forever


Meus queridos,

Saibam que nenhuma tristeza seria capaz de me persuadir a desistir da vida. Foi a luz que me guiou. Meu corpo calejado pede descanso. Minhas pernas doem toda manhã. Minha coluna não tem mais força para me manter elegante. Minhas mãos tremem. Minha mente não segue atormentada como na maioria dos casos. Ao contrário, ela anda tão limpa que nem parece ter tomado uma decisão tão definitiva. Minhas vontades nunca foram tão claras.
Não posso garantir certezas, arrependimentos sempre são possíveis. Mas é muito mais importante arriscar. Melhor a certeza sensata que nada é certo. Se o fosse, que sentido teria acordar? Peço que me deixem dormir, o que não me impedirá de ter sonhos. Nunca me senti tão dona do meu ar. Quanto mais aceito a morte, mais viva me sinto.
Meus muitos anos me ensinaram a reconhecer o melhor momento de me retirar. É apenas isso. Vou ceder meu espaço no mundo, entrego meu corpo em troca da liberdade de minha mente. Ela segue, nômade e jovem. Sem dores. Entrego-me ao cansaço antes que meu corpo se torne debilitado ao ponto de cansar meus amores. Não quero vê-los chorar. E não estarei aqui para enxugar suas lágrimas. Se me permito ir é porque sei que existem muitas boas mãos espalhadas por aqui. Cuidarão de vocês. Lembrem que são lágrimas desnecessárias, mas entendo o quanto são inevitáveis. Eu também já chorei muitas vezes em vão, o que me rendeu algumas rugas a mais.
Acho que cumpri meus deveres. Saciei minhas vontades. Não que eu julgue ter vivido o suficiente, impossível esgotar a vida. Tantos sonhos que eu só sonhei. Alguns nem me recordo mais. Por isso quero parar, não quero mais esquecer. O mundo é tão infinito, não cabe em uma vida. As possibilidades são tantas. Vou sentir saudade de caminhar por aí. Dos sabores, gestos, toques, vozes. Ah, a música! Será que existe música do outro lado? Se eu pudesse levar alguma coisa daqui, levaria umas gotas do mar, umas notas de violão, um livro de sonetos e um vidrinho pra guardar o cheiro dos cabelos de minha neta. Isso me bastaria pela eternidade. Ah! Não posso esquecer o gosto dos morangos, daria um jeito de levar um pé de morango comigo para onde eu fosse. Umas gargalhadas do meu filho, uns beijos do meu falecido marido, uma dança e algumas fotos. Acabaria levando o mundo inteiro! Tudo aqui é apaixonante demais.
Queria poder concentrar tudo em um gole de café. Como o que tomamos mais cedo na varanda. Nosso último momento em vida juntos. Cada minuto dele me fez ter mais certeza que estamos prontos. O queijo nunca derreteu de forma mais suculenta como hoje. Ah, e contem ao padeiro o quanto eu me deliciei com aquele bolinho de tapioca! Nunca rimos por tão pouco. E vocês nunca estiveram tão lindos. É assim que vou me lembrar do mundo durante minha eternindade. Vou sentir falta, mas não sofrerei. Saudade, não se torturem ao senti-la. A saudade é bonita, é a certeza do que foi bom, nos permite lembrar.
Já passei da idade de dar satisfações, não tentarei explicar motivos, eles não são importantes. Só quero ter a certeza que vocês conseguirão ver o sorriso nos meus lábios quando terminarem de me ler.

Com amor,
Dulce.