24/07/2012
Sem segurar
Tudo por equilíbrio, por um passo, pela segurança de um abraço. E lá vem aquela que anda na corda bamba encarando a queda. Vem sem respirar, com os pés apertados em um nó de medo, os olhos ofegantes e o peito encolhido. Melhor seria ver a equilibrista, que leve e reta nunca cogita cair. No máximo balança, só pra não perder o ritmo doce do andar nas alturas. É uma beleza precisa, ela vai chegar. Mas quem vem, vem cambaleando. Parece uma queda a cada passo. A corda palpita. Os pés duram uma eternidade no ar, enquanto o alívio se esvai em segundos. É feio de ver, mas é o que temos à frente dos olhos. Afinal, ela caminha. Torta, tensa e imprecisa. Um dia a corda há de acabar. E então volta o chão onde o pé, aliviado, se espalha. Esse pé descalço e ferido guardará cicatrizes de lembrança e calos com resquícios do suor da nuca e sal dos olhos. Quem balança a corda não sente a adrenalina e nem o peso nas pernas, muito menos o vácuo que invade o corpo em forma de tremor. São trinta metros de corda enroladas embaixo do colchão. Não é fácil se manter na confiança do chão.
27/04/2012
Esperança que não morre, mas mata
Existe alguma coisa mais triste que um circo maltrapilho?
Só a imaginação
essa maldita
não me deixa ser infeliz em paz
Me deixe
em paz
a sós com meu sorriso torto
Ass: Manuel, 41 anos de bobo.
Só a imaginação
essa maldita
não me deixa ser infeliz em paz
Me deixe
em paz
a sós com meu sorriso torto
Ass: Manuel, 41 anos de bobo.
26/04/2012
Vergonha, é o que sinto ao lembrar daquele período da vida. Passou por mim, cortante. Eu, sem ao menos grunhir, passei cabisbaixa. Passei, mas só o consegui porque foi despercebido. Os poucos que me viram passando (e não ouviram) pensaram com desdém: Essa aí? Deixa passar, não é nenhuma ameaça. Acertaram, minha invisibilidade não era proposital, nunca foi fruto de esperteza, era medo. Medo infantil, que me tornava tão inofensiva quanto qualquer aliado leal. Eu só era leal ao silêncio.
Minha neutralidade externa fazia de mim uma mera sombra sem contorno definido. Não me orgulho desse caminho, da minha calma excessiva, do meu desleixo, da minha indignação apática. Escolher o calar por medo de dizer tolices. Não percebia que estúpido era o meu silêncio. Calada eu não tinha rosto e assim meu desgosto, meu protesto e meu desafeto não tinham onde se expressar.
Ninguém tentou interceptar meus passos, claro, eles eram lentos e pareciam seguir a linha reta como os de todos. Ninguém obstruiu o meu caminho pelo simples fato dele não ser meu. Confundiram minha sonolência com ingenuidade. Foi sendo um fantasma que segui adiante.
Minha neutralidade externa fazia de mim uma mera sombra sem contorno definido. Não me orgulho desse caminho, da minha calma excessiva, do meu desleixo, da minha indignação apática. Escolher o calar por medo de dizer tolices. Não percebia que estúpido era o meu silêncio. Calada eu não tinha rosto e assim meu desgosto, meu protesto e meu desafeto não tinham onde se expressar.
Ninguém tentou interceptar meus passos, claro, eles eram lentos e pareciam seguir a linha reta como os de todos. Ninguém obstruiu o meu caminho pelo simples fato dele não ser meu. Confundiram minha sonolência com ingenuidade. Foi sendo um fantasma que segui adiante.
A vantagem desse intervalo de tempo foram as náuseas que me fez sentir.
A humilhação acorda defuntos.
A mente não mudou muito. Muda sempre, é saudável, mas continua congruente com as inquietações do passado. Mudou o tempo, o semblante, a altura da voz. Muda uma forma ou outra, mas não muda de lado. Por dentro continuo pelo mesmo caminho, e quando posso, corro. Tenho pressa. Por fora o caminho mudou. Não sei se foram os olhos ou a paisagem.
Agora os passos são meus.
Não sei em que momento cuspi a inércia. Nem quem me ofereceu o fruto proibido. Resta-me uma dúvida e uma certeza. Minha calma, antes sedativa, agora serve para conciliá-las. Não sei como cheguei, mas sei que vim pelo lado certo.
Por mais angustiante que seja a vista que temos daqui, por mais agressivos que sejam os fantasmas de lá, por mais árduo... Continuamos passando, agora vívidos, e nossa maior e terrível ameaça é convidá-los a viver também.
Agora os passos são meus.
Não sei em que momento cuspi a inércia. Nem quem me ofereceu o fruto proibido. Resta-me uma dúvida e uma certeza. Minha calma, antes sedativa, agora serve para conciliá-las. Não sei como cheguei, mas sei que vim pelo lado certo.
Por mais angustiante que seja a vista que temos daqui, por mais agressivos que sejam os fantasmas de lá, por mais árduo... Continuamos passando, agora vívidos, e nossa maior e terrível ameaça é convidá-los a viver também.
Quem preferir a sombra turva que tente nos deter, mas não conte com a sorte.
A alvorada há de passar.
Por todo lugar.
06/11/2011
26/06/2011
Um dia sem soma

É preciso ser triste de vez em quando
Apreciar a dor
Não é nenhuma lágrima infinita
Nenhum tormento
Também não é culto ao sofrimento
Tampouco conformação
É um breve intervalo
O limiar de duas alegrias
É só um resto de dúvida, raiva e saudade
Porque a felicidade também aprisiona
A plenitude ilude
Animaliza
É preciso
ser triste
ser humano
ao menos, de vez em quando
E se é preciso
acolhamos a tristeza
Que assim ela há de ficar mais leve
Sejas benvinda.
06/04/2011
Inúmeras vezes me ouço declamar opiniões que nem acredito serem minhas, que brotam com o estímulo das conversas mais infantis, das filosofias mais cotidianas. Às vezes, basta a presença, o silêncio ou a lembrança. Até com suas risadas me fazem ver melhor, ver de verdade, me mostram a essência das coisas.
E quando percebo a imensa sorte de "tê-los"sempre chego a acreditar que pronto, conheci todos os melhores seres da humanidade, não é possível que existem outras pessoas tão belas! E então, mais uma vez, eu me traio e me apaixono. Eis que surgem mais deles, mais inspiradores para os dias. Nunca são muitos, chegam aos poucos, lentamente. Alguns quase imperceptíveis. Quando me espanto, depois de um breve processo de compatibilidade espiritual, eles já fazem parte de mim. Já não saberei mais levantar se não for para merecê-los também. E levanto cada dia maior, mesmo conservando meu metro e sessenta. Maior de fé.
Não posso comprovar deus, nem ousaria, mas provo do amor descrito por ele. Eles me fazem sentir, acreditar. Se o inferno é aqui, o céu também pode ser. É a força necessária para fazer algo bom acontecer.
Portanto, tu que me amas, se é que alguém ama, saibas que me amar não é amar a mim, é amar a eles. Porque são eles tudo o que de amável existe aqui.
Aos meus amigos.
13/03/2011
"Porque o tempo nos olha"

Os fatos não cabem em uma vida
Então o vento leva o que pode arrastar
O que é leve passa
O resto persiste
Então o vento leva o que pode arrastar
O que é leve passa
O resto persiste
Lágrimas são leves feito plumas
E o riso que peso tem?
E o riso que peso tem?
O que me resta?
Meu tempo não segue convenção
O dia ultrapassa as 24 horas
Pesa além das 24 gramas
Engana-se o vento
Com quantos segundos se faz um infinito?
Quantos gramas um segundo tem?
16/01/2011
Parto de partida

Neste dia, 5 de dezembro, nesta hora, 5:30 da manhã, uma senhora branca contorcia-se de dor ao dar o ar a um filhote negro. O choro da mãe deu lugar ao choro da cria. Não que estejamos na selva, mas a selva habita aqui, não se pode negar os animais que somos. Aquele choro não era como o grito de existência dos que haviam nascido antes dele. Enquanto as outros estrangulavam-se irritadíssimos pela inconveniência de terem sido retirados do conforto, ele chorava penosamente, era como um canto gregoriano, mas um tanto desafinado. Era como um agradecimento. Obrigado por me libertarem daquela felicidade solitária.
Nascer pode ser dolorido, mas a dor faz de nós vivos. O primeiro suspiro deve rachar o peito, rasgar os espaços nunca antes percorridos. Aquele filhote de deus (com toda a carga positiva que essa palavra possa ter) entendeu na primeira dor a importância de sair da zona de conforto. É muito fácil ser feliz sozinho, o difícil é ser sozinho. Uma hora ou outra, alguma força natural qualquer nos expulsa dos nossos mundos interiores, nascemos e damos de cara com isso: falsa interpretação. Interpretamos a vida, deus, o amor, as razões, as ações, o vazio... Com sentidos muito contorcidos. Interpretamos o cantor. Não percebem que o canto penoso não foi chorado para chamar atenção para si, mas sim para o mundo. Não entendem a mensagem passional por trás daquelas ações racionais. O amor imenso pelo coletivo. A necessidade de nunca deixar de nascer. Não se acomodar. Chorar em outra sintonia. É assim que eu vejo aquele menino, um choro de liberdade. Alguém amado acontece. É momento de comemorar essa existência, que tanto ajuda a existir. Amar só é possível quando se faz parte de alguém. Eu sou uma colcha de retalhos, aquele moleque o mais novo remendo, o mais extravagante que tenho.
18/12/2010
O verdadeiro romance, o que atrai, choca, engloba, é justamente aquela história que não aconteceu. O que ficou por ser. O detalhe que desviou o caminho. Não chegou a amar, não ouve tempo. Acabou antes da largada. Nas bocas, só restou o gosto do quase. A mão estendida, a vontade. Não se tem do que lembrar, imagina-se. E se...
Treze anos depois, se encontraram em um jantar. Ambos casados. Ele, com duas filhas. Ela, um filho e uma neta. Não falaram, não trairam, não fugiram. Nem sequer se reconheceram.
- Acredita, és tu que amo.
- Isso me ofende ainda mais.
- Atos sem significado. Foi vazio, até triste!
- Mais uma prova da tua indecência. Como podes esbravejar prazer sem o sentir?
- Minha carne nem sempre respeita meu pulso.
- Alguém comandado por impulsos não merece o meu respeito.
- Aceito o até teu desprezo, se tiver tuas mãos entre as minhas.
- De mim só poderás ter a ausência.
- Então não terei mais nada, até eu não me pertenço mais. Sou teu.
- Então faço de ti o que eu quiser.
- O que queres?
- Esquecer.
11/12/2010
Degustar-se
Uma mesa comprida o suficiente para não se saber o fim e o começo. A todo instante novas criaturas se faziam presentes. Desconfiados, como se estivessem ali por engano. Enganados por achar que suas juras de perdão no último suspiro lhes livrariam da refeição de si mesmos.Um anjo, um espírito, um garçom:
- Estes são os resíduos da tua estupidez. Senta-te e bebe.
Um bom inferno seria aquele que obrigasse cada um a beber sua arrogância. Eu adoraria assistir alguns infelizes engasgados. Sufocados pelo gosto da soberba. Quente, pastosa e apimentada. Que queimem os lábios detestáveis que tantas ignorâncias já cuspiram ao vento!
Quantas taças seriam necessárias? Quantas doses suportaríamos? Primeiro, apenas o gosto amargo nos incomodaria. E como toda estupidez, seríamos sufocados pelo seu acúmulo. A boca espumante pelo efervescente encontro entre o que se tenta engolir e o que tenta escapulir. Até não haver mais espaço entre os orgãos. O sangue coagular. Overdose de si mesmo. O fluido pastoso agarrado à mandíbula. O ego apodrecido. A decomposição da prepotência. Faltaria ar por excesso de gordura. Não faltaria alimento.
-Engole.
Auto canibalismo.
Alimentar-se do próprio veneno.
Um eterno afogamento em si mesmo.
Agradeço à deus por eu não ter o poder do diabo.
19/09/2010
Aroma

Senti o cheiro da tristeza quando ela passou por mim. E por incrível que pareça, a tristeza não fede. Tem um cheiro de hortelã quente com canela ao fundo. Não é como aquele vento de grama molhada em um domingo chuvoso, é mais doce. Tão leve que quase não se sente, mas quando sente não se esquece, impregnante. A diferença entre um perfume natural e outro francês. Cada um com sua própria nostalgia. Mas o segundo é só, por isso tão forte, luta para manter-se grudado à pele de alguém que lhe dê sentido.
Uma mistura de nada com coisa alguma. Vestido na altura dos joelhos. Sem decote, sem cor, sem corte, sem graça. Um bom dia, seguido por um sorriso fosco. Já vi lágrimas bem mais felizes que aqueles dentes. Uma sacola maior do que as mãos dela pareciam capazes de levantar. Talvez tão pesada quanto as lágrimas engolidas que ela carregava. Uns olhos claros, escurecidos pela falta de graça, pela falta do que olhar. Já assisti olhares vagos, ocupados demais com os próprios eus para reparar nos outros. É que às vezes, o lado de dentro chama mais nossa atenção do que o de fora. Não é egocentrismo, apenas autoconhecimento. Todo mundo tem um mundo próprio e intransferível por trás dos olhos. Ela não tinha. Nada.
Pelas pupilas pude chegar até a alma, flutuante meio ao vácuo interior. Vazio de motivo. Era uma alma desnutrida e amarela de tão desbotada. O andar arrastado deixava claro que não tinha roteiro a seguir. Nem teria força para seguir por conta própria para onde quer que fosse. Suas energias eram suficientes para seguir seguindo, pelo caminho mais reto, mais conveniente.
Alguns são insuficientes para si mesmos. A dor da solidão é a prova de quem não suporta mais a própria presença. É preciso um terceiro alguém. Alguém entre o que se é e o que se sente. Que lhe permita esquecer que ele mesmo ainda está alí. Alguém para apoiar-se, para depender, para ser. Era tão só, que nem ela se servia de companhia.
Não sabia o quanto era infeliz.
Não senti pena, e sim medo. Medo de hortelã e canela.
09/08/2010
Strawberry Fields Forever

Meus queridos,
Saibam que nenhuma tristeza seria capaz de me persuadir a desistir da vida. Foi a luz que me guiou. Meu corpo calejado pede descanso. Minhas pernas doem toda manhã. Minha coluna não tem mais força para me manter elegante. Minhas mãos tremem. Minha mente não segue atormentada como na maioria dos casos. Ao contrário, ela anda tão limpa que nem parece ter tomado uma decisão tão definitiva. Minhas vontades nunca foram tão claras.
Não posso garantir certezas, arrependimentos sempre são possíveis. Mas é muito mais importante arriscar. Melhor a certeza sensata que nada é certo. Se o fosse, que sentido teria acordar? Peço que me deixem dormir, o que não me impedirá de ter sonhos. Nunca me senti tão dona do meu ar. Quanto mais aceito a morte, mais viva me sinto.
Meus muitos anos me ensinaram a reconhecer o melhor momento de me retirar. É apenas isso. Vou ceder meu espaço no mundo, entrego meu corpo em troca da liberdade de minha mente. Ela segue, nômade e jovem. Sem dores. Entrego-me ao cansaço antes que meu corpo se torne debilitado ao ponto de cansar meus amores. Não quero vê-los chorar. E não estarei aqui para enxugar suas lágrimas. Se me permito ir é porque sei que existem muitas boas mãos espalhadas por aqui. Cuidarão de vocês. Lembrem que são lágrimas desnecessárias, mas entendo o quanto são inevitáveis. Eu também já chorei muitas vezes em vão, o que me rendeu algumas rugas a mais.
Acho que cumpri meus deveres. Saciei minhas vontades. Não que eu julgue ter vivido o suficiente, impossível esgotar a vida. Tantos sonhos que eu só sonhei. Alguns nem me recordo mais. Por isso quero parar, não quero mais esquecer. O mundo é tão infinito, não cabe em uma vida. As possibilidades são tantas. Vou sentir saudade de caminhar por aí. Dos sabores, gestos, toques, vozes. Ah, a música! Será que existe música do outro lado? Se eu pudesse levar alguma coisa daqui, levaria umas gotas do mar, umas notas de violão, um livro de sonetos e um vidrinho pra guardar o cheiro dos cabelos de minha neta. Isso me bastaria pela eternidade. Ah! Não posso esquecer o gosto dos morangos, daria um jeito de levar um pé de morango comigo para onde eu fosse. Umas gargalhadas do meu filho, uns beijos do meu falecido marido, uma dança e algumas fotos. Acabaria levando o mundo inteiro! Tudo aqui é apaixonante demais.
Queria poder concentrar tudo em um gole de café. Como o que tomamos mais cedo na varanda. Nosso último momento em vida juntos. Cada minuto dele me fez ter mais certeza que estamos prontos. O queijo nunca derreteu de forma mais suculenta como hoje. Ah, e contem ao padeiro o quanto eu me deliciei com aquele bolinho de tapioca! Nunca rimos por tão pouco. E vocês nunca estiveram tão lindos. É assim que vou me lembrar do mundo durante minha eternindade. Vou sentir falta, mas não sofrerei. Saudade, não se torturem ao senti-la. A saudade é bonita, é a certeza do que foi bom, nos permite lembrar.
Já passei da idade de dar satisfações, não tentarei explicar motivos, eles não são importantes. Só quero ter a certeza que vocês conseguirão ver o sorriso nos meus lábios quando terminarem de me ler.
Com amor,
Dulce.
05/06/2010
Desconexo
Vive uma alma de poeta aqui dentro. Mas eu não sei rimar.
Sigo sentindo.
2.bmp)
É que não sei sentir em público. Se sofre melhor sozinho.
Meus sofrimentos são só meus. E eu não aceito dividir.
4.bmp)
E pode parecer indiferença. Não é que eu não sinta.
Só tenho o péssimo hábito de sentir a dor só
dos olhos para dentro.
.
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[Fotos de Irina Ionesco - Exposição Espelhos de luz e sombra]
02/06/2010
Cru

É possível duas almas habitando um corpo só? Almas podem ser mentes. Idéias que contradizem atos. Eu-líricos que negam o eu. Enquanto um grita o outro abafa. Uma vontade que carrega um covarde nas costas. Como correr com tanta inércia? Ideais dividem espaço com a incompetência. Eu não me perdôo pela dualidade. O silêncio ratificou a incapacidade. Queria eu, poder sair do corpo e me fitar os próprios olhos sem reflexos. De que valem olhos idealistas com essa boca covarde? O engraçado é a prepotência de querer ser livre. Para quê criticas a censura se tu nem ao menos tens voz para ser calada? Pensar não muda a direção. Uma idéia não expressa. Uma alma sem corpo. Um sangue sem propulsão. Que tipo de gente eu vou ser? Minha estupidez míope me impede de enxergar. Algum tipo eu já sou. Não há espaço pra duas mentes em uma vida. É preciso decidir quem ser. E viver sendo.
29/05/2010
Rotina
E a rotação se completou. Os raios começaram a invadir entre as nuvens escondidas pela sombra. O preto virou azul escuro, que virou azul claro, que virou dia. Os contornos do mundo foram sendo iluminados e o que era penumbra virou luz. O canto acompanhava o processo. O som da madrugada virando manhã chega a ser mitológico. Uma orquestra desengonçada e apaixonante de pássaros cativantes.
Quando percebeu os primeiros raios, correu pra cama e de joelhos abriu a janela. Deitou com os pés apoiados no para-peito. Não fechou os olhos. Arregalou-os para ver com mais precisão cada segundo de mudança de tonalidade. Imitava um dos pássaros com o assobio. O costume de ouvi-lo diariamente a ensinou. Desligou o ar condicionado, com aquele vento úmido entrando pela janela não era preciso usar-se de artificialidades. E quando a Lua finalmente desaparecereu, levantou da cama e arrastou o lençol até a cozinha. Esquentou o leite, misturou-o ao chocolate, cortou um pedaço do bolo guardado na geladeira. E a orquestra prosseguia. Naquele anil cobrindo o teto do mundo. Aquele orvalho. Aquela felicidade preguiçosa e sem compromisso.
Sentada na escrivaninha com a caneca colorida, lembrança de uma eterna doce amizade, preencheu a página do dia anterior, aquela mania de confessar ao papel os sentidos de todos os dias. De avaliar se valera a pena. De registrar o que um dia deixaria saudade. De ler a si mesma em cada página. Talvez fosse apenas medo de esquecer. De ser esquecida. Cuidem das minhas partes, minha mente vale mais que meu corpo.
Terminado o bolo e as palavras, pegou o livro na cabeceira. Jogou-se no sofá e o abriu em um pouco mais que a metade. Até o sol esquentar o teria terminado. Acabou adormecendo com o livro sobre si virado na última página. Não chegou a ler o final. Mas fechara os olhos com a certeza que seria um bom final. Talvez um bom começo. Mais um começo do ritual. Essa coisa estranha que apelidaram de vida.
25/05/2010
Um simplista
Foi uma tarde tão estupidamente simples! Mas é dela que eu vou lembrar quando as lembranças forem as únicas coisas palpáveis. Quando o valor do passado se apresentar. Ainda lembro do livro que a gente estudava. Até garantia responder, ainda hoje, depois de anos, algumas questões daquele assunto. Existem coisas que não se esquece, nem sei o porquê. Talvez porque existam dias que precisam ser vividos. Porque esses dias fazem sentido. São o sentido. A felicidade se traveste em simplicidade. E a complexidade do sistema nem sempre permite que se perceba como é fácil sorrir.
A casa era nossa. O vento também. Ninguém consegue estudar química em um dia bonito como aquele. Tentamos, mas não resistimos à preguiça. Quando percebi estávamos espalhados pelo chão de papos para o ar. E foi alí que ficamos até o Sol se despedir e a realidade voltar. Quando paro, ainda consigo ouvir nossas gargalhadas ecoando lá longe, num passado bom.
08/04/2010
A noite anterior

Eu queria saber desenhar para captar melhor. Talvez a palavra não os faça ver a poesia daquela cena.
Um homem, um copo e uma dor. A métrica é impressionante, tudo se encaixa harmoniosamente. Letra por letra, imagem por imagem. O barulho do gelo contra o copo rima com a gravata folgada sem cerimônias. A calça social que cobre os tornozelos. O cinto desafivelado. O cabelo "perfeitamente bagunçado." Os sapatos jogados no entrar da porta. A meia fina e escorregadia que o protege contra o chão gelado.
O corpo desequilibrado tem dificuldade de ir da bancada da cozinha até a sala, são apenas três passos inseguros. As mãos ocupadas não podem segurar as paredes que se movem ameaçadoras na direção dele. Na esquerda segura o copo, quase vazio depois do último gole. Na direita a garrafa, "o whisky é o melhor amigo do homem". Deixou seus amigos na mesa de centro e arrancou a camisa depois de se convencer que não conseguiria desabotoa-la civilizadamente.
Só não entende porque aquele maldito jarro de vidro insiste em ficar bem à sua frente. Por mais que ele desvie, o desgraçado o segue incansável. Acaba por espatifa-lo. O corpo, sem aviso, joga-se no sofá macio. Ele não percebe, mas a meia não consegue estancar o sangue derramado por um pedaço vingativo do jarro quebrado. O sofá ganha uma mancha grande e escura. Talvez por isso ele não foi tão receptivo quanto se esperava. No meio de sua maciez algo sólido lhe machuca a nuca. Controle remoto. Remoto controle. Alguém já fez esse trocadilho um dia. Ele teria ligado a TV 52 polegas presa à parede, mas o botão fugiu dos seus dedos, acabou desistindo.
Pelo visto o apartamento inteiro tirara a noite para se revoltar contra ele. Não só o apartamento, como o dia em si, como 24h podem ser tão cruéis? Perdi muita coisa em muito pouco tempo. E agora não consigo nem alcançar o copo na mesinha de centro. Meu gelo derretendo. O mundo rodando mais rápido do que o habitual. E a foto na parede sorrindo cinicamente. Desgraçados! Caiu no sono alí mesmo, com o braço jogado para fora do sofá e a boca aberta. A dor só se apresentará na manhã do dia seguinte.
Um homem, um copo e uma dor. A métrica é impressionante, tudo se encaixa harmoniosamente. Letra por letra, imagem por imagem. O barulho do gelo contra o copo rima com a gravata folgada sem cerimônias. A calça social que cobre os tornozelos. O cinto desafivelado. O cabelo "perfeitamente bagunçado." Os sapatos jogados no entrar da porta. A meia fina e escorregadia que o protege contra o chão gelado.
O corpo desequilibrado tem dificuldade de ir da bancada da cozinha até a sala, são apenas três passos inseguros. As mãos ocupadas não podem segurar as paredes que se movem ameaçadoras na direção dele. Na esquerda segura o copo, quase vazio depois do último gole. Na direita a garrafa, "o whisky é o melhor amigo do homem". Deixou seus amigos na mesa de centro e arrancou a camisa depois de se convencer que não conseguiria desabotoa-la civilizadamente.
Só não entende porque aquele maldito jarro de vidro insiste em ficar bem à sua frente. Por mais que ele desvie, o desgraçado o segue incansável. Acaba por espatifa-lo. O corpo, sem aviso, joga-se no sofá macio. Ele não percebe, mas a meia não consegue estancar o sangue derramado por um pedaço vingativo do jarro quebrado. O sofá ganha uma mancha grande e escura. Talvez por isso ele não foi tão receptivo quanto se esperava. No meio de sua maciez algo sólido lhe machuca a nuca. Controle remoto. Remoto controle. Alguém já fez esse trocadilho um dia. Ele teria ligado a TV 52 polegas presa à parede, mas o botão fugiu dos seus dedos, acabou desistindo.
Pelo visto o apartamento inteiro tirara a noite para se revoltar contra ele. Não só o apartamento, como o dia em si, como 24h podem ser tão cruéis? Perdi muita coisa em muito pouco tempo. E agora não consigo nem alcançar o copo na mesinha de centro. Meu gelo derretendo. O mundo rodando mais rápido do que o habitual. E a foto na parede sorrindo cinicamente. Desgraçados! Caiu no sono alí mesmo, com o braço jogado para fora do sofá e a boca aberta. A dor só se apresentará na manhã do dia seguinte.
24/03/2010
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Dói um sorriso forçado. Machuca os ouvidos, uma gargalhada sem vida. Segue cimento pelas veias pedrificando cada mínimo movimento facial. O maxilar se contrai desobediente. Os dentes não tem o brilho da espontaneidade. Dizem até que ficam amarelados. Surgem manchas escuras de cansaço abaixo dos olhos. Ah os olhos! Esses dedo-duros, denunciam nosso esforço em transparecer verdade no famoso "tudo bem, e você?", como se alguém realmente reparasse na resposta. Fiz um teste. Tudo bem? Não e você? Ninguém percebeu. É quando nos acostumamos com o mundo que passamos de humanos a selvagens. Uns dizem ser a mesma coisa, eu não tenho tanta certeza. Deixamos de perceber, somos infectados pela cegueira branca de Saramago e morremos ainda vivos. Uma briga eterna entre músculos e alma.
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Nem sei pq escrever isso hoje, a vida está inversa ao texto. Meu "tudo bem e você?" tem andado muito feliz e até extravagante. Mas foi o que surgiu. Lembro o dia que escrevi, e naquele dia ele bem foi sincero. Tanto que nem ousei mexer, totalmente cru e nu como veio ao papel.
Obs: Fiquei feliz, descobri uns seres que visitam o Quimera mas não comentam. Vcs ficam se escondendo, ai eu nunca ia saber :) Né Asmin?
Beijão pessoas!
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Nem sei pq escrever isso hoje, a vida está inversa ao texto. Meu "tudo bem e você?" tem andado muito feliz e até extravagante. Mas foi o que surgiu. Lembro o dia que escrevi, e naquele dia ele bem foi sincero. Tanto que nem ousei mexer, totalmente cru e nu como veio ao papel.
Obs: Fiquei feliz, descobri uns seres que visitam o Quimera mas não comentam. Vcs ficam se escondendo, ai eu nunca ia saber :) Né Asmin?
Beijão pessoas!
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